12 abril 2013

Sebastião Salgado estreia em Londres exposição fotográfica do Projeto Gênesis.


Projeto Gênesis estreia em Londres com exposição de 245 fotos, retratando tribos isoladas e paisagens de rara beleza. A exposição passará por 30 museus no mundo.

Sebastião Salgado em entrevista à Reuters (Foto: Suzanne Plunkett/Reuters)

Ao longo de oito anos, Sebastião Salgado visitou 32 países ou regiões do mundo – a pé, de avião, barco ou canoa – e vivenciou temperaturas e situações extremas para registrar as fotos do projeto Genesis, cuja exposição teve estréia mundial nesta terça-feira (09/04), no Museu de História Natural de Londres, e depois percorrerá diversos países.

No foco do mais novo trabalho de Salgado estão a natureza e o mundo animal. As 245 fotos da exposição levam o visitante a uma viagem a desertos, mares e florestas do planeta Terra, apresentando os vulcões das Ilhas Galápagos, os pinguins e baleias da Antártida, a tribo isolada dos Zo'é na Amazônia, e os povos nômades no Sudão, entre vários outros motivos.

Em entrevista à DW Brasil, Salgado explica que o Instituto Terra – uma organização não governamental criada em sua cidade natal, Aimorés (MG), por ele e por sua esposa e curadora do projeto, Lélia Wanick Salgado – foi a inspiração para o projeto Genesis. "Desta vez eu tomei a decisão de fazer uma história sobre as partes prístinas do planeta, onde fui fotografar todas as espécies."

Salgado diz que, com sua obra, pretende aproximar as pessoas da natureza e, assim, fazê-las se preocuparem mais com o mundo em que vivem. "O fato de termo-nos urbanizado fez com que abandonássemos o planeta", declarou.

Depois de Londres, a exposição seguirá para museus em Roma, Toronto, Paris, São Paulo, Lausanne e Rio de Janeiro. Museus de outras cidades, como Berlim e Frankfurt, na Alemanha, também vão mostrar o mais recente trabalho de Salgado. "Há 30 museus no mundo que já estão comprometidos com a exposição", disse o fotógrafo.

O projeto Gênesis rendeu, ainda, um documentário sobre a vida de Sebastião Salgado. O filme, dirigido pelo diretor alemão Wim Wenders e pelo filho do fotógrafo, Juliano Salgado, vai ter sua première no Festival de Cinema de Veneza, na Itália, ou de Toronto, no Canadá. Além disso, um livro homônimo será lançado pela editora alemã Taschen Verlag.

Paisagens como o Grand Canyon, nos EUA, fazem parte do projeto Genesis

DW Brasil: O projeto Êxodos, lançado em 2000, mostrou o sofrimento do ser humano. Agora, com o Genesis, o senhor aborda a natureza de uma forma geral. Gênesis é um contraponto ao Êxodos?

Sebastião Salgado: Todos os projetos de fotografia que eu fiz foram um pouco ligados ao momento que estava vivendo e à importância das coisas para mim. Então eu fui um imigrante [Sebastião vive em Paris e já morou em Londres por longo tempo], eu fui um refugiado, eu estava inteiramente ligado ao problema de deslocamento de populações em todas as partes do mundo. Por isso que fiz uma história, uma exposição que foi chamada de Êxodos.
E hoje, como trabalhamos num grande projeto ambiental no Brasil – estamos plantando uma imensa quantidade de árvores –, tomei a decisão de fazer uma história sobre as partes prístinas do planeta, onde fui fotografar todas as espécies.
Até então eu tinha fotografado um só animal, desta vez fotografei todos. Esse animal que eu tinha fotografado antes éramos nós. Agora fotografei todos os outros, todo o mundo vegetal, o mundo das águas, o mundo mineral. É quase uma nova apresentação do planeta.

O senhor criou o Instituto Terra em sua cidade natal e percorreu o mundo para realizar o projeto Gênesis  Esse projeto é uma reconciliação com as suas origens?

Eu não diria uma reconciliação. Eu voltei para onde eu nasci. Quando nasci, existia uma floresta lá, que foi inteiramente destruída, como em outros lugares do mundo. E nós estamos refazendo essa floresta e chegando a 2 milhões de árvores plantadas.
E Gênesis nasceu desse projeto [do Instituto Terra], [dessa área] que estávamos recuperando no Brasil. Aí veio a ideia de fotografar a natureza. Estávamos vivendo de uma forma tão intensa com a natureza que eu fui, durante oito anos, a 32 países ou regiões do mundo e fiz esse projeto.
Então Gênesis realmente nasceu do Instituto Terra. Agora, o Instituto Terra é muito mais do que uma reconciliação, é uma recuperação de algo que foi destruído. Todos nós temos que recuperar o mundo.

Quais são suas crenças quanto a mudar o mundo com as suas fotografias?

Crenças, eu não tenho. Eu não creio, eu não acredito em nenhum ser superior. Eu tenho ideologia, eu acho que eu espero um pouco de ética, também, eu espero, com essas fotografias, que as pessoas se aproximem mais do planeta, voltem-se um pouco em direção a ele. Isso porque o fato de termo-nos urbanizado fez com que abandonássemos o planeta.
Hoje, nas cidades, não reconhecemos mais as árvores, não reconhecemos mais os pássaros, você não reconhece mais nada. Você está completamente isolado do seu planeta. Nós somos um animal, e nós fazemos parte da espécie animal.
Muitas vezes me disseram que eu fazia parte da única espécie racional, mas isso é uma enorme mentira. Todas as espécies são profundamente racionais dentro delas mesmas. Então, esse negócio de concentrar só no humano, nós temos que fazer uma autocrítica aí dentro e se voltar um pouco para os outros.
Nós colocamos a mão sobre todas as outras espécies, dominamos, estamos destruindo. Vai chegar uma hora que não vai ter mais lugar para nós neste planeta. Eu acho que podíamos fazer um pouco de autocrítica, voltar atrás e nos voltarmos em direção aos outros e de forma mais integrada.

A exposição Gênesis tem 245 fotos. Qual delas tem o significado mais especial para o senhor e por quê?

Nenhuma e todas ao mesmo tempo. Porque foram oito anos da minha vida trabalhando oito meses por ano, e essas fotografias na realidade são um pedaço grande da minha vida. Eu vivi com elas, então dizer que as fotografias que fiz na Antártida são muito mais interessantes do que as fotografias que fiz no Punjab não é verdade.
Todas são. Todas as fotos caracterizam o nosso planeta. Eu passei muito tempo [trabalhando para fazer as fotos], eu tive uma identificação imensa com tudo o que fotografei. Então, para mim, é um corpo de trabalho, que eu quero que as pessoas venham ver, e não isolar alguma coisa, individualizar. Isso, para mim, é impossível.
É como quando você tem filhos. É difícil dizer de qual filho você gosta mais. Você gosta de todos. O resultado, as pessoas têm que ver, e se elas acharem uma coisa mais especial do que outras, que bom. Mas, para mim, isso é difícil, porque eu tenho na realidade uma grande dose de sentimento com essas fotografias, e o tempo que eu passei [com elas] de identificação. Então, quando eu olho um e olho o outro, difícil dizer qual eu prefiro.

Fonte: DW.DE



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